Hachiko: a história do cão 'mais fiel do mundo', que faria 100 anos

Por Redação em 03/07/2023 às 08:11:41

Hachiko, um cachorro da raça Akita Inu, esperou dez anos em uma estação de trem no Japão pelo dono que havia falecido. O slogan chin√™s no cartaz do filme diz tudo: "Vou esperar por voc√™, não importa quanto tempo leve".

Ele conta a história real de Hachiko, o cão que continuou esperando pelo dono em uma estação de trem no Japão muito tempo depois da morte dele.

O cachorro da raça Akita Inu, nascido h√° cem anos, j√° foi lembrado de diversas maneiras — em livros, filmes e até na série animada de ficção Futurama.

E a produção chinesa que est√° em cartaz nos cinemas do pa√≠s — a terceira depois de uma versão japonesa em 1987, e uma protagonizada por Richard Gere em 2009 — é um sucesso de bilheteria.

H√° histórias de outros cães leais, como o escoc√™s Greyfriars Bobby, mas nenhuma com o impacto global de Hachiko.

H√°, inclusive, uma est√°tua de bronze dele do lado de fora da estação de Shibuya, em Tóquio, onde esperou por seu dono por uma década.

A est√°tua foi erguida pela primeira vez em 1934, antes de ser reciclada como parte do esforço de desenvolvimento de material bélico durante a Segunda Guerra Mundial — e reerguida em 1948.

As crianças japonesas aprendem na escola a história de Chuken Hachiko — ou do cão leal Hachiko — como um exemplo de devoção e fidelidade.

Hachiko representa o "cidadão japon√™s ideal" com sua "devoção inquestion√°vel", diz a professora Christine Yano, da Universidade do Hava√≠, nos EUA.

"Leal, confi√°vel, obediente a um mestre, que compreende seu lugar no esquema mais amplo das coisas, sem depender da racionalidade", explica.

A história de HachikoHachiko nasceu em novembro de 1923 na cidade de Odate, na prov√≠ncia de Akita, local de origem da raça Akita.

Akita é um cão japon√™s de grande porte — uma das raças mais antigas e populares do pa√≠s.

Designados pelo governo japon√™s como um √≠cone nacional em 1931, eles j√° foram treinados para caçar animais como javalis e alces.


A est√°tua de Hachiko do lado de fora da estação de Shibuya, em Tóquio. — Foto: Getty Imagens via BBC


"Os cães Akita são calmos, sinceros, inteligentes, corajosos [e] obedientes aos seus donos", afirma Eietsu Sakuraba, autor de um livro infantil em ingl√™s sobre Hachiko.

"Por outro lado, também tem uma personalidade teimosa e desconfia de qualquer pessoa que não seja seu dono."

No ano em que Hachiko nasceu, Hidesaburo Ueno, um renomado professor de agricultura apaixonado por cães, pediu a um aluno que encontrasse um filhote de Akita para ele.

Após uma cansativa viagem de trem, o filhote chegou à resid√™ncia de Ueno, no distrito de Shibuya, em 15 de janeiro de 1924.

A princípio, pensaram que estava morto.

Segundo a professora Mayumi Itoh, biógrafa de Hachiko, Ueno e a esposa, Yae, cuidaram dele ao longo de seis meses até se recuperar.

Ueno o chamou de Hachi, que significa "oito" em japonês. O sufixo "Ko" foi acrescentado pelos alunos dele.

A longa esperaUeno pegava um trem para o trabalho v√°rias vezes por semana. Ele ia até a estação de Shibuya acompanhado de seus tr√™s cachorros, incluindo Hachiko. O trio esperaria ali por seu retorno à noite.

Em 21 de maio de 1925, Ueno, então com 53 anos, morreu de hemorragia cerebral.

Hachiko estava com ele h√° apenas 16 meses.

"Enquanto as pessoas assistiam ao velório, Hachi sentiu o cheiro de Ueno na casa e entrou na sala. Ele rastejou para debaixo do caixão e se recusou a se mexer", escreveu Itoh.

Hachiko passou os meses seguintes com diferentes fam√≠lias fora de Shibuya, mas, no verão de 1925, acabou ficando com o jardineiro de Ueno, Kikusaburo Kobayashi.

De volta à √°rea onde seu falecido dono morava, Hachiko logo retomou o trajeto di√°rio que fazia até a estação — podia fazer chuva ou fazer sol.

"À noite, Hachi ficava parado na catraca e olhava para cada passageiro como se estivesse procurando alguém", escreve.

No in√≠cio, os funcion√°rios da estação acharam o comportamento inconveniente. Os vendedores de yakitori (espetinho) jogavam √°gua em Hachiko, enquanto crianças pequenas batiam nele.

Mas depois que o jornal japonês Tokyo Asahi Shimbun escreveu sobre ele, em outubro de 1932, Hachiko ganhou fama nacional.


A est√°tua de Hachiko costuma ser ponto de encontro para manifestações de cunho pol√≠tico. — Foto: Getty Images via BBC


A estação recebia doações de alimentos para Hachiko todos os dias, enquanto visitantes vinham de todas as partes para v√™-lo.

Poemas e haikus (forma de poesia japonesa) foram escritos sobre ele.

Em 1934, um evento de arrecadação de fundos para fazer uma est√°tua em homenagem a ele atraiu 3 mil pessoas.

A not√≠cia da morte de Hachiko em 8 de março de 1935 foi estampada na capa de muitos jornais.

Em seu funeral, monges budistas proferiram orações e dignit√°rios leram discursos em homenagem a ele.

Milhares de pessoas visitaram sua est√°tua nos dias que se seguiram.

No empobrecido Japão do pós-guerra, uma campanha de arrecadação de fundos para uma nova est√°tua de Hachiko conseguiu angariar 800 mil ienes, uma quantia enorme na época. Isso equivaleria a cerca de 4 bilhões de ienes hoje (aproximadamente R$ 134 milhões).

"Pensando bem, acho que ele sabia que Ueno não voltaria, mas continuou esperando. Hachiko nos ensinou o valor de manter a fé em alguém", escreveu Takeshi Okamoto em um artigo de jornal em 1982.

Como estudante do ensino médio, ele via Hachiko na estação diariamente.

Homenagens a HachikoTodos os anos, no dia 8 de abril, é realizada uma cerimônia em homenagem a Hachiko do lado de fora da estação de Shibuya.

Ao longo do ano, a est√°tua dele costuma ser decorada com cachecóis, gorros de Papai Noel e, mais recentemente, m√°scaras cir√ļrgicas.

O corpo empalhado de Hachiko est√° em exposição no Museu Nacional da Natureza e da Ci√™ncia, em Tóquio. Seus demais restos mortais estão sepultados no Cemitério de Aoyama, ao lado de Ueno e Yae.

Também h√° est√°tuas dele em Odate, a cidade natal de Ueno, em Hisai, na Universidade de Tóquio e em Rhode Island, nos EUA, que foi cen√°rio do filme americano de 2009.

Odate também tem uma série de eventos programados para este ano, quando Hachiko completaria cem anos.

Mas ser√° que o cão mais leal do mundo ainda vai ser celebrado daqui a um século?

Yano acredita que sim, uma vez que o "hero√≠smo de Hachiko" não é definido por nenhum per√≠odo espec√≠fico — pelo contr√°rio, é atemporal.

Sakuraba se mostra igualmente otimista.

"Daqui cemanos, esse amor incondicional e devoto vai permanecer inalterado, e a história de Hachiko vai viver para sempre."

Fonte: G1

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