Relatório da CPI da Covid deve responsabilizar 63 pessoas por crimes na pandemia

Por Redação em 15/10/2021 às 23:12:56

Entre essas pessoas, est√£o o presidente Jair Bolsonaro e filhos, ministros e ex-ministros, deputados e médicos. Relatório ser√° apresentado na próxima ter√ßa e votado na quarta.

O relatório final da CPI da Covid deve pedir o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro por 11 crimes na condu√ß√£o da pandemia. Também devem ser responsabilizados filhos do presidente, ministros e ex-ministros, funcion√°rios e ex-funcion√°rios do governo, deputados e médicos. No total, deve propor que 63 pessoas sejam indiciadas.

Do anúncio da abertura da CPI, no plen√°rio do Senado, em 13 de abril, até hoje, os senadores interrogaram 59 pessoas na condi√ß√£o de convidadas, testemunhas ou investigadas.

Compartilhe esta notícia no WhatsApp

Compartilhe esta notícia no Telegram

Muitos buscaram proteção no Supremo Tribunal Federal para não ser presos, ficar calados ou não responder a perguntas que pudessem incriminá-los.

Em seis meses de trabalho, assessores do Senado, policiais federais, auditores da Receita Federal e do Tribunal de Contas da Uni√£o ajudaram a analisar dados fiscais, banc√°rios e telefônicos, mensagens apreendidas em celulares, e-mails, telegramas diplom√°ticos, contratos e outros milhares de documentos de domínio público e sigilosos.

Nas mais de mil p√°ginas do relatório, que vai ser lido na ter√ßa-feira que vem, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) deve afirmar que

o governo manteve um gabinete paralelo para dar suporte a medidas na √°rea de saúde contra as evidências científicas;

trabalhou com a intenção de imunizar a população por meio de contaminação natural, a chamada imunização de rebanho;

priorizou o tratamento precoce sem efic√°cia comprovada;

agiu contra a ado√ß√£o de medidas n√£o farmacológicas, como o distanciamento social e o uso de m√°scaras;

e, deliberadamente, atuou para atrasar a compra de vacinas.

O relatório deve dizer que o governo federal foi omisso e optou por negligenciar o enfrentamento da pandemia.

Com esse raio-X dos comportamentos e atitudes, Renan Calheiros deve indicar o cometimento de 22 crimes diferentes, entre os quais homicídio, genocídio de indígenas, crimes contra a humanidade, corrup√ß√£o, fraude em licita√ß√£o, prevarica√ß√£o e falsifica√ß√£o de documentos.

O relatório deve recomendar que 63 pessoas sejam indiciadas, além de uma empresa, a Precisa Medicamentos, envolvida na suspeita de corrup√ß√£o na venda da vacina Covaxin ao governo federal.

Segundo o relator da CPI, o presidente Jair Bolsonaro vai ser indiciado por 11 crimes.

Reprodução/TV Globo

Bolsonaro e filhos

Segundo o relator da CPI, o presidente Jair Bolsonaro vai ser indiciado por 11 crimes:

epidemia com resultado morte;

infração de medida sanitária preventiva;

charlatanismo;

incitação ao crime;

falsificação de documento particular;

emprego irregular de verbas públicas;

prevaricação;

genocídio de indígenas;

crime contra a humanidade;

crime de responsabilidade, por violação de direito social e incompatibilidade com dignidade, honra e decoro do cargo;

homicídio comissivo por omiss√£o no enfrentamento da pandemia.

Relator da CPI também deve pedir o indiciamento de três filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Reprodução/TV Globo

A TV Globo apurou que Renan Calheiros também deve pedir o indiciamento de três filhos do presidente:

o senador Flávio Bolsonaro por advocacia administrativa (quando um servidor se vale do cargo que ocupa para defender interesses privados), incitação ao crime e improbidade administrativa;

o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, por incitação ao crime.

Os ministros Marcelo Queiroga, Onyx Lorenzoni e Wagner Ros√°rio também devem ser alvo de pedidos de indiciamento.

Reprodução/TV Globo

Ministros

O relator deve ainda indiciar três ministros:

Marcelo Queiroga (Saúde), por epidemia culposa, com resultado morte e prevarica√ß√£o;

Onyx Lorenzoni (Trabalho, ex-ministro da Casa Civil e da Cidadania), por genocídio de indígenas;

Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União) por prevaricação.

Os ex-ministros Eduardo Pazuello e Ernesto Araújo devem ser alvo de pedidos de indiciamento feitos pela CPI da Covid.

Reprodução/TV Globo

Ex-ministros e funcion√°rios

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello deve ser o segundo com maior número de pedidos de indicamento — sete, só atr√°s do presidente Jair Bolsonaro:

epidemia com resultado morte;

incitação ao crime;

emprego irregular de verbas públicas;

prevaricação;

comunicação falsa de crime;

genocídio de indígenas;

e crime contra a humanidade.

Outro ex-ministro, Ernesto Araújo (Rela√ß√Ķes Exteriores), deve ser indiciado por epidemia culposa com resultado em morte e por incita√ß√£o ao crime.

Também s√£o responsabilizados funcion√°rios ou ex-funcion√°rios de alto escal√£o do governo, como Élcio Franco, Mayra Pinheiro, Roberto Ferreira Dias, Arthur Weintraub e F√°bio Wajngarten.

Seis deputados devem estar na lista de indiciados do relator da CPI da Covid, Renan Calheiros.

Reprodução/TV Globo

Deputados

Seis deputados devem estar na lista de indiciados de Renan Calheiros:

o líder do governo na C√Ęmara, Ricardo Barros, por advocacia administrativa e improbidade administrativa;

Osmar Terra, por epidemia culposa com resultado morte e incitação ao crime;

Carla Zambelli, Bia Kicis, Carlos Jordy e Hélio Lopes, por incita√ß√£o ao crime.

Relatório final da CPI da Covid deve pedir o indiciamento de pessoas apontadas como integrantes do gabinete paralelo.

Reprodução/TV Globo

Gabinete paralelo e núcleos

Na lista, devem estar também pessoas apontadas como integrantes do gabinete paralelo, como os empres√°rios Luciano Hang e Ot√°vio Fakhoury, por incita√ß√£o ao crime, e Carlos Wizard, por epidemia culposa com resultado morte, além da médica Nise Yamaguchi e do virologista Paolo Zanotto, pelo mesmo crime.

A TV Globo também apurou que o relatório vai demonstrar a existência de uma organiza√ß√£o com sete núcleos articulados entre si para disseminar conteúdo falso (as chamadas fake news) para a popula√ß√£o sobre o combate à pandemia. A CPI constatou que a estrutura oficial do governo foi usada para levar desinforma√ß√£o aos brasileiros.

Parte das informa√ß√Ķes que devem ser utilizadas no relatório foram compartilhadas pelo Supremo Tribunal Federal a partir de investiga√ß√Ķes j√° feitas pela Polícia Federal no inquérito das fake news.

De acordo com a apura√ß√£o da CPI, o comando vem do presidente da República, Jair Bolsonaro, e dos filhos, que criam e replicam fake news sobre os impactos da pandemia.

O relatório deve dizer que o segundo núcleo (formulador) e o terceiro núcleo (execu√ß√£o e apoio às decis√Ķes) s√£o formados por servidores do gabinete da Presidência, incluindo o que ficou conhecido como gabinete do ódio. E o quarto núcleo (político) seria formado por parlamentares, políticos e religiosos que d√£o suporte às decis√Ķes da organiza√ß√£o.

Os outros três núcleos estariam mais relacionados a pessoas de fora do governo: o núcleo de produ√ß√£o das fake news e opera√ß√£o das redes sociais; o de dissemina√ß√£o das fake news; e o de financiamento desses conteúdos.

Prevent Senior

O caso da operadora de plano de saúde Prevent Senior, que ganhou destaque ao final das investiga√ß√Ķes, dever√° ter um capítulo à parte.

Para a CPI, a operadora pressionava médicos a prescreverem remédios do chamado kit covid, comprovadamente ineficazes no combate à doen√ßa, como parte de um estudo sem o consentimento dos pacientes e em conjunto com o governo federal.

A comiss√£o também apurou indícios de que a Prevent ocultava mortes por Covid.

No relatório, Renan Calheiros deve propor o indiciamento de oito médicos da Prevent e do diretor da empresa, Pedro Benedito Batista Júnior por perigo para a vida ou saúde de outrem, omiss√£o de notifica√ß√£o de doen√ßa, falsidade ideológica e crime contra a humanidade.

Se aprovado pela maioria dos senadores da CPI, na vota√ß√£o prevista para quarta-feira, o relatório ser√° enviado à Procuradoria-Geral da República, que ter√° a tarefa de conduzir as investiga√ß√Ķes sobre os indiciados com foro privilegiado, como o presidente Jair Bolsonaro, ministros e parlamentares federais.

O relatório ser√° ainda enviado para a primeira inst√Ęncia do Ministério Público Federal e dos estados, que ter√£o de levar à frente as apura√ß√Ķes que envolvem os outros indiciados.

Cópias das investiga√ß√Ķes ser√£o encaminhadas para Polícia Federal e Receita Federal, além do Tribunal Penal Internacional, por causa das acusa√ß√Ķes de genocídio de indígenas e crimes contra a humanidade.

"O relatório de uma comiss√£o parlamentar de inquérito equivale no processo penal a uma espécie do inquérito policial. Ent√£o, em havendo indício ou em havendo provas é necess√°rio pedir o indiciamento dessas pessoas. Foi isso que nós fizemos", afirmou o senador Renan Calheiros.

"Foi um trabalho gigantesco, uma investiga√ß√£o que se deu à luz do dia, nós contamos com a aderência muito grande na sociedade, com a participa√ß√£o dos meios de comunica√ß√£o, n√£o pretendíamos investigar corrup√ß√£o e logo nos deparamos com ela, e tivemos que aprofundar a investiga√ß√£o em todas as dire√ß√Ķes. Eu acho que foi sim um trabalho satisfatório, que precisa ter continuidade nas inst√Ęncias específicas para onde nós o mandaremos", complementou.

O que dizem os citados

A assessoria do Pal√°cio do Planalto n√£o se manifestou sobre o assunto.

Fl√°vio Bolsonaro afirmou que as acusa√ß√Ķes contra ele e o governo n√£o têm base jurídica e n√£o fazem sentido.

A Prevent Senior declarou que tem total interesse que investiga√ß√Ķes técnicas, sem contornos políticos, sejam realizadas por autoridades como o ministério público; que houve um linchamento público a partir de denúncias infundadas levadas à CPI, sem amplo direito à defesa e ao contraditório; que as acusa√ß√Ķes ocorreram em contexto extremamente politizado, em que tratamentos médicos foram previamente condenados por serem associados ao governo de Jair Bolsonaro; e que a empresa n√£o tem vínculos nem com o presidente nem com partidos políticos.

Carlos Jordy afirmou que a CPI cria narrativas contra Jair Bolsonaro.

Luciano Hang declarou que a comiss√£o é política e amparada em narrativas e n√£o em fatos e que a "verdade ir√° prevalecer".

Carla Zambelli acusou Renan Calheiros de antecipar o relatório e disse que vai denunciar o senador à Procuradoria-Geral da República.

A defesa de Carlos Wizard afirmou que o empres√°rio n√£o definiu políticas do governo e que, por isso, n√£o pode ser responsabilizado por epidemia culposa.

Nise Yamaguchi disse que vai se manifestar depois da leitura oficial do relatório.

F√°bio Wajngarten e Roberto Dias n√£o quiseram se manifestar.

A TV Globo n√£o conseguiu contato com Carlos Bolsonaro e Paulo Zanotto. Também procurou outras autoridades e ex-integrantes do governo que devem constar no relatório da CPI, mas n√£o obteve resposta.

Fonte: G1

Comunicar erro
Agro Noticia 728x90