Mil dias de governo: Bolsonaro perde um ministro a cada dois meses

Por Redação em 26/09/2021 às 18:11:45

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou ao poder com a promessa de montar uma equipe técnica e rejeitar o toma l√°, d√° c√° com partidos tradicionais. Mil dias e cem crises depois, 19 ministros j√° deixaram o posto, o equivalente a uma baixa a cada 52 dias. Essa dan√ßa das cadeiras afetou √°reas relevantes para o pa√≠s, como Sa√ļde e Educa√ß√£o — e gerou uma transmuta√ß√£o do governo Bolsonaro. Enfraquecido e com a popularidade em queda, o presidente abriu m√£o do seu discurso de campanha contra a velha pol√≠tica e entregou pastas e órg√£os expressivos a caciques do Centr√£o, que, em troca, ofereceram uma base de apoio a Bolsonaro no Congresso.

As mudan√ßas na estrutura do governo ocorreram à medida que surgiram conflitos externos, com Judici√°rio e Legislativo, e internos, provocados por embates entre alas opostas como a militar e a ideológica, que tornaram o Pal√°cio do Planalto um ringue logo nos primeiros meses de governo.

A primeira baixa na equipe de Bolsonaro ocorreu apenas 48 dias após o in√≠cio do governo — e foi precedida por uma crise conflagrada entre o filho e o homem de confian√ßa do presidente. Coordenador da campanha que elegeu Bolsonaro, o advogado Gustavo Bebianno, ent√£o ministro-chefe da Secretaria-Geral, foi dispensando após travar um embate com o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente. Desconfiado de Bebianno, Carlos coordenou uma ofensiva nas redes sociais contra o advogado. A fritura p√ļblica só terminou quando Bolsonaro decidiu romper com o antigo bra√ßo direito, morto em mar√ßo de 2020.

Esse mesmo processo de desgaste também foi aplicado ao professor Ricardo Vélez (Educa√ß√£o), ao general Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo), ao médico Luiz Henrique Mandetta (Sa√ļde) e ao ex-juiz Sergio Moro (Justi√ßa e Seguran√ßa P√ļblica).

'F√°brica de crises'
Ex-ministros escanteados e substitu√≠dos por discordar do chefe do Executivo descreveram ao Globo a gest√£o Bolsonaro como uma f√°brica de crises, que carece de planejamento estratégico e é movida pelo fanatismo de apoiadores radicais. O reflexo disso é que, com tantas trocas, sobretudo em √°reas estratégicas, o governo se torna ingovern√°vel.

Terceiro a ser demitido por Bolsonaro, Santos Cruz entrou na linha de tiro do n√ļcleo ideológico ao mudar regras para a aplica√ß√£o das verbas publicit√°rias da Secretaria Especial de Comunica√ß√£o, ent√£o comandada por Fabio Wajngarten. Ele também barrou a nomea√ß√£o de Léo √ćndio, primo dos filhos do presidente que atuaria como um homem de confian√ßa de Carlos Bolsonaro. N√£o sobreviveu aos ataques da ala ideológica do governo e foi defenestrado do Planalto.

"Voc√™ n√£o v√™ uma conversa equilibrada sobre os problemas que o pa√≠s tem. Voc√™ v√™ shows permanentes. É o show de quinta (live), é o show do cercadinho (na porta do Pal√°cio do Alvorada). Como esses shows permanentes colaboram para os problemas do Brasil? Como aquele 7 de setembro, que foi um show nacional, colaborou? N√£o havia solu√ß√Ķes para os brasileiros que est√£o vivendo abaixo da linha da miséria nem era conversa para estimular o povo a se dedicar ao trabalho, à honestidade. Foi um show de brigas pessoais", diz Santos Cruz.

Também cr√≠tico ao comportamento de Bolsonaro, Sérgio Moro deixou o Ministério da Justi√ßa e Seguran√ßa P√ļblica em abril de 2020 alegando n√£o compactuar com interfer√™ncias nas trocas de comando da Pol√≠cia Federal. Numa coletiva de imprensa que irritou Bolsonaro, Moro saiu atirando. Falou que o presidente tinha preocupa√ß√£o com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal (STF).

No in√≠cio deste ano, Moro voltou a criticar o ex-chefe ao escrever um artigo à revista Crusoé alegando que o Pa√≠s vice um "v√°cuo de lideran√ßa". "Ora convivemos com o v√°cuo de lideran√ßa, ora com a proposi√ß√£o de solu√ß√Ķes erradas", escreveu. Procurado pelo Globo, o ministro afirmou que n√£o comentaria a reportagem.

Oito dias antes da sa√≠da de Moro, o governo viveu momentos de tens√£o com a demiss√£o do ent√£o ministro da Sa√ļde, Luiz Henrique Mandetta, que saiu em meio à pandemia de Covid-19. Bolsonaro e Mandetta travaram uma guerra pelos holofotes da condu√ß√£o da crise sanit√°ria. Enquanto o ministro defendia o distanciamento social, o fechamento de comércios para impedir a circula√ß√£o do v√≠rus e o uso de prote√ß√£o facial, o presidente incentivava aglomera√ß√Ķes, sem m√°scaras.

"A sa√ļde talvez seja o maior emblema de condu√ß√£o errada, de lideran√ßa tóxica, de falta de vis√£o", disse Mandetta. "Ele tirou (do Ministério da Sa√ļde) praticamente todo o corpo técnico e militarizou. O que a gente v√™ na sa√ļde é essa crônica necrológica de tratamento precoce e de n√£o aquisi√ß√£o de vacina, de n√£o respeito às academias e à ci√™ncia e isso afasta as pessoas que formulam, que pensam. Elas n√£o se sentem mais confort√°veis em fazer parte do governo", afirmou, referindo-se ao negacionismo de Bolsonaro.

A dan√ßa das cadeiras n√£o parou. Bolsonaro trocou o ministro da Sa√ļde tr√™s vezes. Além de Mandetta, passaram por l√° Nelson Teich e Eduardo Pazuello até chegar em Marcelo Queiroga, isolado em Nova York por se contaminar por Covid-19 durante viagem para participar da Assembleia Geral das Organiza√ß√Ķes das Na√ß√Ķes Unidas (ONU). O reflexo dessa mudan√ßas é notório: atraso na campanha de vacina√ß√£o e quase 600 mil mortos por Covid-19.

Aliados mesmo fora do governo
Ao deixar o governo, a maioria dos ministros seguiu aliada de Bolsonaro. Das 19 baixas, nove continuam próximos do presidente e cinco assumiram novos postos pelas m√£os de Bolsonaro como o ex-ministro da Educa√ß√£o Arthur Weintraub, que ganhou um cargo no Banco Mundial após entrar em rota de colis√£o com o Supremo Tribunal Federal, e o ex-chefe da Secretaria-Geral Jorge Oliveira, indicado para assumir uma vaga no Tribunal de Contas da Uni√£o (TCU).

Dentre os ex-integrantes do governo e fiéis aliados do presidente est√° o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Alvo de investiga√ß√£o da Pol√≠cia Federal, ele pediu demiss√£o em junho, alegando uma decis√£o pessoal. A gest√£o do ministro era alvo de cr√≠ticas no Congresso e no exterior, mas, até ent√£o, ele seguia no cargo, com o respaldo do presidente.

Salles minimiza as crises geradas pelo governo e diz que os atritos s√£o fruto de uma mudan√ßa ideológica no comando do pa√≠s.

"Depois de vinte anos da esquerda dominando, qualquer governo que viesse, como veio o do presidente Bolsonaro, e mudasse essa orienta√ß√£o, teria bastante barulho. Voc√™ n√£o muda vinte anos de uma lógica de funcionamento em dois anos sem que isso gere realmente um certo atrito ou uma certa instabilidade", justifica.

A sa√≠da de aliados do presidente abriu espa√ßo para a domin√Ęncia de pol√≠ticos do Centr√£o. Presidente licenciado do PP e senador, Ciro Nogueira (PI) tomou posse em agosto como ministro-chefe da Casa Civil. Em abril, a deputada Fl√°via Arruda (DF), indicada do PL de Valdemar Costa Neto, chegou à Secretaria de Governo, respons√°vel pela articula√ß√£o pol√≠tica do Planalto com o Congresso. Em fevereiro de 2021, o deputado Jo√£o Roma (Republicanos-BA) assumiu a Cidadania, que gerencia o programa social Bolsa Fam√≠lia.

"Havia um pressuposto de uma mudan√ßa radical do curso da pol√≠tica, mas a pol√≠tica n√£o é feita de mudan√ßas radicais. A pol√≠tica é uma constru√ß√£o do dia a dia. N√£o existe pol√≠tica sem pol√≠tico", diz Salles.

Fonte: IG

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