No Brasil de Bolsonaro, diplomatas estrangeiros relatam rotina de montanha-russa

Por Redação em 26/09/2021 às 10:40:57

A pol√≠tica brasileira é como uma montanha-russa, e, se o passageiro estiver sem cinto, pode cair. O cinto, neste caso, s√£o as institui√ß√Ķes mais representativas de um regime democr√°tico. A met√°fora foi a maneira que um embaixador estrangeiro encontrou para explicar como v√™ o pa√≠s ao qual chegou um pouco após a posse do presidente Jair Bolsonaro. O problema, apontou, "é que uma monta-russa dura dez minutos, no m√°ximo. N√£o se pode viver assim por muito tempo".

Depois de ouvir oito representantes diplom√°ticos instalados em Bras√≠lia, chega-se a algumas conclus√Ķes. O trabalho de todos é vertiginoso. Em outros pa√≠ses do mundo, episódios ocorridos no Brasil teriam levado à destitui√ß√£o do presidente. Depois de alguns sustos, os diplomatas entenderam o b√°sico da din√Ęmica pol√≠tica local e asseguram que só avisar√£o sobre o risco real de impeachment se a iniciativa for anunciada pelo presidente da C√Ęmara, Arthur Lira (PP-AL).

O mesmo racioc√≠nio vale quando surgem rumores de golpe de Estado: só avisar√£o seus governos se houver um pronunciamento formal das For√ßas Armadas. O presidente respira confronto, costuma extrapolar e, geralmente, recua. N√£o é conveniente tra√ßar cen√°rios nem de curto prazo. O Brasil de Bolsonaro é, como o chefe de Estado, imprevis√≠vel.

Alguns diplomatas admitiram que o interesse pelo governo Bolsonaro é grande e contam que costumam receber algum tipo de consulta a cada 15 minutos. Os telegramas podem ser semanais, em alguns casos mais frequentes, mas nos √ļltimos meses as perguntas sobre o que est√° acontecendo no Brasil se multiplicaram no WhatsApp.

Algumas situa√ß√Ķes geraram perplexidade, entre elas o discurso do presidente na Avenida Paulista, no 7 de setembro passado. Mas nenhum dos entrevistados disse ter imaginado que o desafio de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF) se concretizaria. O presidente, de certa forma, deixou de ser levado a sério. Ficou claro, para todos, que seu modus operandi é buscar embates permanentemente, para manter sua base de apoiadores engajada.

Os diplomatas estrangeiros também entendem que as institui√ß√Ķes da democracia brasileira est√£o resistindo. O vaivém da pol√≠tica local gera cansa√ßo e representa um enorme desafio para todos. É necess√°rio buscar permanentemente fontes diretas de informa√ß√£o, e um dos que esteve conversando recentemente com v√°rios embaixadores foi o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Muitos também mant√™m contado com ex-presidentes como Michel Temer, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor.

Est√° claro que, apesar das diversas frentes de conflito abertas pelo presidente, o Brasil continua funcionando, comentou um dos diplomatas estrangeiros. A quest√£o, analisou, "é que o Brasil poderia ser um trem bala, como a China, e est√° longe disso".

O que um dos entrevistados chamou de "cores" do panorama pol√≠tico brasileiro — por exemplo, o episódio do vazamento do v√≠deo em que o ex-presidente Michel Temer aparece rindo da imita√ß√£o do chefe de Estado feita por André Marinho — est√£o presentes em alguns dos relatórios enviados a seus respectivos pa√≠ses. Outros preferem n√£o entrar nesse tipo de detalhe "folclórico" e "fazer uma an√°lise mais profunda, que permita ao meu governo entender, por exemplo, o papel de Temer na resolu√ß√£o da crise pós 7 de Setembro". Para muitos, "em qualquer outro pa√≠s, o recuo de Bolsonaro seria invi√°vel, mas aqui essas coisas acontecem".

Os diplomatas informaram sobre os protestos dos caminhoneiros, mas n√£o perderam tempo explicando quem é Sergio Reis. "Tentamos ser o mais objetivos e sensatos poss√≠vel", frisa um embaixador, rindo de alguns personagens que t√™m aparecido na pol√≠tica brasileira e que "seriam muito dif√≠ceis de explicar para um interlocutor que n√£o est√° aqui".

O esquema da rachadinha é mencionado em algumas an√°lises, mas n√£o cada esc√Ęndalo envolvendo Fabr√≠cio Queiroz, ex-assessor do senador Fl√°vio Bolsonaro (Republicamos-RJ). Quando vira "uma novela mexicana", disse outro diplomata, é preciso manter o foco e concentrar as aten√ß√Ķes nos grandes riscos que corre o pa√≠s.

Pagar para perder
Muitos governos querem saber até que ponto Bolsonaro pode, de fato, ser afastado do cargo. Um dos embaixadores afirmou que, se tudo o que aconteceu nos √ļltimos meses tivesse acontecido quando chegou a Bras√≠lia, na segunda metade de 2019, com limitados conhecimentos sobre o Brasil, teria ligado para seu chanceler e anunciado um prov√°vel impeachment. Hoje, admitiu, "só aviso quando a coisa é realmente grave e concreta". O famoso ver para crer.

Bolsonaro é considerado pelos diplomatas entrevistados como "mais populista do que golpista". Muitos lamentam que o Brasil esteja perdendo oportunidades no exterior, pela péssima imagem instalada desde que o presidente chegou ao Pal√°cio do Planalto. Enquanto Bolsonaro comia pizza numa cal√ßada de Nova York, cena considerada surreal por todos os diplomatas entrevistados, o presidente da Colômbia, Iv√°n Duque, recebia uma doa√ß√£o de US$ 1 bilh√£o do magnata Jeff Bezos, com quem jantou na mesma cidade. O dinheiro ser√° usado para projetos de prote√ß√£o do meio ambiente. "N√£o custa muito fazer as coisas de uma maneira mais prudente, cuidadosa, que cuide da imagem do pa√≠s", lamentou um embaixador.

A maioria dos diplomatas estrangeiros considera dif√≠cil a reelei√ß√£o do presidente em 2022. Para alguns, "às vezes parece que lhe pagaram para perder essa chance". Bastava, amplia um embaixador, se vacinar contra a Covid-19 e se comportar de uma maneira civilizada durante sua visita aos EUA. Faltam "atitudes razo√°veis, apenas isso".

Algumas das crises mais recentes deixaram os diplomatas estrangeiros exaustos. O 7 de setembro deu muito trabalho pela usina de rumores sobre atos de viol√™ncia em v√°rias cidades. Foi necess√°rio, explicou um deles, "distinguir entre palavras e atos, para dar uma informa√ß√£o regular e real sobre o que estava acontecendo no terreno. Sempre prestamos aten√ß√£o às palavras, mas aguardamos os fatos".

Fonte: IG

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