Flagrado com 16 em carro, professor diz que leva alunos para projeto de futebol e sonha em ter ajuda; VÍDEO

Por Redação em 13/09/2021 às 09:31:34

Vídeos do professor e as crianças viralizaram nas redes sociais neste fim de semana. Ao ver a cena, empresária que filmou achou que fossem bonecos no veículo. Chefe da Agetran fala que fato é inaceitável. Motorista leva dezenas de crianças em veículo e comete várias infrações de trânsito

O veículo popular e de cor azul claro, poderia muito bem passar despercebido no trânsito de Campo Grande, não fosse a imprudência a olho nu, com as pernas de crianças balançando ao vento e o porta malas aberto. A cena foi registrada neste fim de semana, na região da Coronel Antonino, por uma empresária de 35 anos. O G1 localizou o condutor e ele confirmou os fatos, dizendo que haviam 16 alunos e, assim como ele fez na infância, estavam ali para lutar pelo sonho de serem jogadores profissionais de futebol.

"Eu sou professor voluntário e tenho esse projeto social há 20 anos. Não tenho outro recurso e faço isso para levar as crianças para jogarem nos campeonatos. Eu toco ele [projeto] sozinho. Levo a gurizada desde muito pequena para jogar na comunidade Tia Eva, para fazer treinos no bairro Mata do Jacinto onde tem uma quadra de futsal e também lá na região do Nova Lima e no bairro Estrela Dalva", afirmou José Ferreira de Andrade, de 64 anos.

Conhecido como Esquerdinha, o professor fala que possui uma renda de R$ 1,9 mil mensais. "Eu sou professor de futebol e divido a minha renda com estas crianças do trabalho voluntário. Elas possuem uniforme, eu sempre levo pão e suco de lanche. Nunca tive uma ajuda sequer e daqui já saiu jogadores que foram para times grandes. Faço isso porque, quando eu era criança, nunca tive apoio. Também para que essa gurizada fique longe das drogas, das bebidas e do crime", comentou.

Professor conta que fundou escolinha voluntária em 1995 e fornece uniforme e lanche para os alunos

Redes Sociais/Reprodução

Iniciado em 1995, ele fala que a escolinha de futebol é um sonho antigo, o qual ele já pensou diversas vezes em desistir. "Eu tinha o sonho e montei o Esporte Clube Esquerdinha. Desde 2007 somos federados e já conquistamos muitos troféus. Teve jogador que saiu daqui e foi para o interior de São Paulo, Pará, Paraná, muitos lugares. Nesse carro mesmo, uma vez enchi de crianças e fomos para uma peneira que teve aqui do Corinthians. De lá, escolheram 8 crianças nossas", ressaltou.

Troféus quebrados

Professor fala que já ganhou inúmeros troféus desde que fundou escolinha de futebol em MS

Redes Sociais/Reprodução

Sem sede e depois de buscar recursos financeiros com empresários, o professor fala que chegou a quebrar alguns troféus em um "dia de revolta". "Eu queria ter uma sede, um vestiário, só que eu sei que não tem como pedir nem um centavo para os pais. Tem lugar que cobra R$ 100 só do uniforme, mas, eu não vou fazer isso. Eu peço para empresários e não para os pais, sei que eles não tem como ajudar e muitos eu nem conheço. O que nos une mesmo, eu e essas crianças, é o amor pelo futebol", garantiu.

Sobre a imprudência com o carro, o professor fala que sabe que "está arriscando a própria vida". "Isso aí é sempre que acontece e eu sei que, se precisar, as crianças vão a pé para o campo comigo. Eu não vou desistir só porque me filmaram. Tem amistoso direto, elas querem ir. Hoje mesmo eu só não vou usar o carro porque o pneu está careca e o meu salário não está mais dando como antes. O que você compra hoje não é o mesmo que conseguia comprar antes", lamentou José.

Casado e pai de dois filhos, ele fala que também os leva para assistir e participar de campeonatos na cidade. "Eu sou treinador de futebol, só que joguei no Comercial em 1979 e 1980. Agora, continuo esse sonho com eles. A maior vontade que tenho é ter um ônibus para levá-los, para participarem de peneiras e jogarem em vários outros bairros, outras cidades do estado", disse.

Achei que fossem bonecos, diz empresária

A empresária de 35 anos, que prefere não ser identificada, é quem filmou o veículo abarrotado de crianças. De início, ela conta que "achou que fossem bonecos ou qualquer coisa do tipo, menos crianças".

"Eu estava passando pela avenida Cônsul Assaf Trad e, do nada, me deparo com aquela cena de um carro e, simplesmente, três pernas para fora do veículo. Minha primeira impressão é que fossem bonecos ou qualquer coisa do tipo, menos crianças. Na hora, me indignei ao ver a irresponsabilidade daquele motorista, colocando pessoas em risco, ainda mais no mesmo dia em que motorista bateu em um motociclista e este morreu na hora", explicou.

Ainda conforme a empresária, o condutor fazia o mesmo trajeto que ela. "Quando parou, vi saírem umas cinco crianças uniformizadas, todas felizes, dando tchau e marcando um novo encontro. Depois, ele continuou o trajeto com as outras pessoas e foi aí que eu entendi que ele estava fazendo um transporte para jogadores de futebol. Nos últimos dias, a gente soube de tantas coisas acontecendo no trânsito aqui, que é quase impossível ver uma cena daquela e imaginar que não poderia acontecer algo", finalizou.

Fato é inaceitável, diz chefe da Agetran

A chefe da Educação para o Trânsito da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), Ivanise Rotta, analisou as imagens e disse que o motorista pode, de forma imprudente, "amputar as pernas" das crianças. Ela ainda ressaltou que este fato comprova o quanto o trabalho preventivo é essencial para que, casos do tipo, não sejam flagrados pela cidade.

"Uma colisão de um veículo deste, mesmo que a velocidade não esteja excessiva, seria uma tragédia. Sem cinto de segurança, todo mundo amontoado, um vai batendo a cabeça no outro. As chances existem e é algo real. Nós entendemos que há um problema social, então, devemos buscar soluções e jamais colocar em risco, dizendo que está fazendo um bem maior. O trabalho preventivo é essencial para que não tenhamos que remediar o irremediável, porque, quando se perde uma vida, principalmente de criança, não há nada que conforte a família. Não há nada que faça a sociedade aceitar a morte de uma criança por negligência", alegou.

Flagrante do professor levando os alunos de projeto em avenida de Campo Grande

Redes Sociais/Reprodução
Comunicar erro
Agro Noticia 728x90