Bolsonaro assinou a carta testamento do mito

Por Redação em 12/09/2021 às 09:13:07

Parcela da massa de desiludidos est√° decepcionada com Bolsonaro, mas continua à procura de um mito. Se Bolsonaro n√£o conseguir vestir a fantasia de antissist√™mico de novo, a massa vai encontrar outro mito. Em agosto de 1954, um presidente da Rep√ļblica anunciou que sa√≠a da vida para entrar para a História. Era a carta testamento de Get√ļlio.



Em setembro de 2021, em contexto completamente diferente, Bolsonaro também usou uma carta para falar de vida e história. Anunciou que a sua vida de pol√≠tico antissistema era só historinha. É a carta testamento do mito. Escrita por Temer.

A fama de mito foi constru√≠da com uma premissa: Bolsonaro é antissistema. Coisa que nunca foi. Ao contr√°rio. Deixou o Exército pelas portas do fundo e entrou para a pol√≠tica do Rio. Mas o t√≠tulo de vereador carioca era pouco. Afinal, o cora√ß√£o do sistema est√° em Bras√≠lia e é pra l√° que ele resolveu ir. Virou deputado federal e largou o mandato de vereador pela metade.

Ainda era pouco. O sistema podia render mais. O ent√£o deputado criou uma franquia pol√≠tica, possibilitando que a marca Bolsonaro elegesse mulheres, filhos e amigos por quatro décadas.




Funcionava assim: o discurso antissistema garantia votos (foram 115 milh√Ķes ao longo da história) e o sistema pagava em dia. A turma j√° ganhou 19 elei√ß√Ķes e garantiu 76 anos de mandatos somados. Quase um século de sal√°rios.

Novas possibilidades após 2013

Surgiram novas possibilidades com as manifesta√ß√Ķes de 2013. Bolsonaro e sua franquia perceberam que havia uma massa de ressentidos com a democracia. Eram brasileiros desiludidos com a Nova Rep√ļblica, com a forma como PT e PSDB, com apoio de partidos de programa (ali√°s, sem programa), comandaram o pa√≠s após a ditadura.

Popularizada pelo filme "Tropa de Elite", a palavra "sistema" passou a sintetizar tudo o que os ressentidos repudiam. Institui√ß√Ķes democr√°ticas como STF, Congresso, imprensa, partidos pol√≠ticos e organiza√ß√Ķes da sociedade civil precisavam se implodidas.

A massa ressentida repudiava as institui√ß√Ķes porque procuravam um super-herói, um messias, um mito que estivesse acima delas. Portanto, alguém que fosse antissistema e simbolizasse o novo e a honestidade.

Entra em cena a esperteza pol√≠tica da franquia Bolsonaro. Dos zeros à esquerda, o filho Carlos foi quem entendeu mais rapidamente que eles poderiam se conectar diretamente com essa massa através de redes sociais.

Elas foram fundamentais para distorcer uma fala do ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, durante o julgamento do mensal√£o. Em seu voto, citou que l√≠deres de quatro partidos haviam sido comprados pelo governo petista para votar a favor do projeto de lei das fal√™ncias. Conclui que era verdade, porque os deputados desses quatro partidos votaram em peso como orientaram os l√≠deres. Para refor√ßar a acusa√ß√£o, Joaquim citou nominalmente Bolsonaro como o √ļnico parlamentar que n√£o havia votado a favor.

Bolsonaro e sua m√°quina de desinforma√ß√£o (na época n√£o se chamava fake news) conseguiram transformar a fala de Joaquim num atestado de honestidade amplo, geral e irrestrito. Segundo o próprio Bolsonaro, Joaquim teria dito que ele era o √ļnico deputado que n√£o havia sido comprado pelo PT no esquema do mensal√£o.

Outra coisa: como Bolsonaro n√£o estava envolvido nos esc√Ęndalos de sufixo aumentativo (mensal√£o e petrol√£o), apenas nos de sufixos diminutivos (rachadinha), eles contavam que dava para emplacar a imagem de um puro em meio à imundice.

Alguns comportamentos ajudaram a consolidar a imagem de pol√≠tico antissist√™mico. Para os ressentidos, o mito tinha que ser bem diferente da velha pol√≠tica. N√£o podia ter qualquer respeito à liturgia do cargo, nada que cheirasse ao decoro de uma Vossa Excel√™ncia. E nisso Bolsonaro é craque.

A franquia passou a caprichar no jeit√£o de maluco, de diferent√£o. A√≠ que entra o absurdo civilizatório: cada frase com tons racistas, homofóbicos, misóginos e de ódio contra minorias refor√ßavam, para essa massa de desiludidos, a imagem de autenticidade, do homem do povo que fala o que vem à cabe√ßa. Bolsonaro ia escolhendo seus alvos a dedo: Jean Willys na √°rea do comportamento e Maria do Ros√°rio, na de Direitos Humanos.

Veio a elei√ß√£o e a faixa presidencial. É óbvio que Bolsonaro n√£o foi eleito apenas por essa massa de desiludidos com a democracia. Ela estava gritando mito, quando 58 milh√Ķes de eleitores pularam nesse cercadinho. Como presidente, Bolsonaro simbolizava o sistema, mas todos os dias tinha que ir ao cercadinho para parecer antissistema. Gastou metade de seu mandato neste esfor√ßo. N√£o trabalhava. Apenas mantinha a fama de mito.

A história mais recente, todos j√° sabem. Sonhou com o autogolpe, n√£o teve for√ßa suficiente e se viu obrigado assinar a carta de rendi√ß√£o. A provisória carta de rendi√ß√£o. A carta testamento do mito.

Mas que ninguém se iluda. Politicamente, Bolsonaro n√£o est√° morto. Longe disso. Afinal, a massa de ressentidos com a democracia n√£o deixou de existir. Parcela dela est√° decepcionada com Bolsonaro, mas continua à procura de um mito. Se Bolsonaro n√£o conseguir vestir a fantasia de antissist√™mico de novo, a massa vai encontrar outro mito. A democracia brasileira que se vire para lidar com seus ressentidos.

Fonte: G1

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