MBL e Vem Pra Rua convocam ato pelo impeachment e como alternativa ao protagonismo da esquerda

Por Redação em 18/07/2021 às 10:59:55

A porta-voz do movimento Vem Pra Rua, Luciana Albert, na Av. Paulista, em São Paulo Foto: TABA BENEDICTO / ESTADAO

Os grupos Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua, que convocaram as manifesta√ß√Ķes contra Dilma Rousseff em 2016 e reuniram milhares de pessoas contra a petista, se organizam para voltar às ruas em setembro, desta vez pelo impeachment de Jair Bolsonaro. A a√ß√£o conjunta é uma tentativa de pressionar pelo o impedimento do presidente, evitando que somente os grupos de esquerda sejam protagonistas neste processo. Sindicatos e partidos como PSOL, PT e PCO j√° t√™m promovido manifesta√ß√Ķes pelo País.

No c√°lculo para iniciar o movimento est√° tanto buscar a saída imediata do presidente que "incorreu em v√°rios crimes de responsabilidade", segundo afirma a advogada Luciana Alberto, porta-voz do Vem Pra Rua, quanto a avalia√ß√£o de que, caso o impeachment se consolide, a rivalidade direta entre o presidente e o ex-presidente Luiz In√°cio Lula da Silva possa se arrefecer. "O Lula se beneficia da candidatura do Bolsonaro", diz Renan Santos, um dos coordenadores do MBL – para quem os protestos, até aqui, s√£o também atos de pré-campanha do líder petista.

Renan afirma que o foco dos atos n√£o é Lula, mas, sim, Bolsonaro. Luciana discorda. "Nossa frase é "Eles, n√£o". Nem Bolsonaro, nem Lula." Esses grupos avaliam que n√£o s√£o bem-vindos aos atos convocados pela esquerda, e citam como exemplo a hostilidade recebida por um grupo do PSDB no último protesto em S√£o Paulo, em 3 de julho. Mas dizem que qualquer pessoa, incluindo as de esquerda, ser√£o bem recebidas caso compare√ßam para defender o impeachment de Bolsonaro.

O Estad√£o conversou com Renan Santos e Luciana Alberto para saber mais sobre a organiza√ß√£o dos atos contra o presidente, as expectativas e quais s√£o as avalia√ß√Ķes deles sobre o cen√°rio atual e sobre o movimento de 2016. Confira, a seguir, os principais trechos das entrevistas.

"As manifesta√ß√Ķes s√£o o principal índice de insatisfa√ß√£o", diz coordenador do MBL

Líder do movimento afirma que "pessoas que votaram no Bolsonaro no 2¬ļ turno n√£o apenas o rejeitam como o querem fora"

Por que o MBL decidiu assinar o "superpedido" de impeachment de Bolsonaro?

Para mostrar que, enquanto oposi√ß√£o, h√° um desejo uno, a despeito de todas as diferen√ßas, em derrubar o Bolsonaro, tirar ele do poder. Entendendo que é uma miríade de crimes que foram cometidos por ele.

Por que voltar às ruas para se manifestar pelo impeachment?

Querendo ou n√£o, a manifesta√ß√£o de rua, os atos de rua, ainda s√£o o principal instrumento de demonstra√ß√£o pública de insatisfa√ß√£o com um determinado político. É o principal índice, é o principal indicador utilizado pelos políticos para medir isso. Porque demonstra um nível n√£o só de raiva em redes sociais, que é comum, mas pessoas que est√£o indignadas. O ato político demonstra que pessoas que votaram no Bolsonaro no segundo turno n√£o apenas o rejeitam como o querem fora. É um ato que tem um poder simbólico enorme.

A parte da oposi√ß√£o à esquerda j√° est√° nas ruas. D√° para pensar em se unir aos atos deles ou na presen√ßa deles nas manifesta√ß√Ķes de voc√™s?

Os organizadores das manifesta√ß√Ķes de esquerda foram especialmente partidos como PT e o PSOL. PCO, inclusive. Ent√£o, obviamente, elas também t√™m em si a defesa do valor desses partidos, a candidatura do Lula. O pessoal do PDT foi vaiado. N√£o é um lugar que temos de ir ou que recomendamos que v√£o as pessoas que t√™m nossa vis√£o de mundo. É uma manifesta√ß√£o que tem um determinado car√°ter que, para o PT, é eleitoral. Agora, o que estamos falando: voc√™ é de esquerda e quer ir na manifesta√ß√£o, v√°. Entendendo que voc√™ tem que respeitar a outra pessoa que est√° l√°. Acho que todo mundo tem que baixar um pouco a bola, ceder um pouco para a gente poder construir uma coisa mais ampla. No caso das manifesta√ß√Ķes da esquerda eu respeito o espa√ßo democr√°tico deles, acho que tem que fazer oposi√ß√£o ao Bolsonaro, mas acho que eles s√£o extremamente ostensivos na demonstra√ß√£o das candidaturas. Eles falam l√° em derrubar a PEC do Teto, a reforma também. Tem um comício também eleitoral aí. N√£o acho que funcione para derrubar o Bolsonaro.

Ent√£o, para voc√™s, as manifesta√ß√Ķes até aqui s√£o manifesta√ß√Ķes em favor do Lula?

Para parte da turma do PT, é.

Deste modo, h√° diferen√ßas entre os atos que voc√™s est√£o convocando e os que j√° ocorreram até agora...

Isso. Tanto que a gente est√° convidando os presidenci√°veis dos mais diversos a irem e participarem da manifesta√ß√£o. "Ah, eu quero ir para defender o fulano, beltrano." Ora, gente, por favor, n√£o fa√ßam isso. Isso afasta, isso rotula. O que tiver é "Fora, Bolsonaro". Tem que ser o mínimo denominador comum. É o "Fora, Bolsonaro".

Mas faz sentido marcar atos para só daqui a um m√™s?

A gente tem como uma característica as manifesta√ß√Ķes que fizemos (contra Dilma Rousseff, em 2016), o tempo de organiza√ß√£o. A gente convocava com tr√™s meses, dois meses e meio de anteced√™ncia, porque a gente precisava divulgar. Diferentemente das manifesta√ß√Ķes de esquerda, nós n√£o temos piso, ou seja, eles t√™m um público engajado, milit√Ęncia partid√°ria, estrutural. Mas eles também t√™m um teto. N√£o temos piso, mas também n√£o temos teto. A situa√ß√£o do Bolsonaro só piora daqui em diante. O que est√° sendo descoberto pela CPI, a situa√ß√£o do (líder do governo na C√Ęmara dos Deputados) Ricardo Barros (PP-PR), que atinge o cora√ß√£o do Centr√£o. E aí o momento se cria.

Quais semelhanças veem entre aquele momento e agora?

Ali era um movimento em que, por mais que tivesse um momento de raiva e de liberta√ß√£o do PT, havia também uma esperan√ßa. Agora n√£o. Agora é uma manifesta√ß√£o muito baseada numa frustra√ß√£o, sentimento de trai√ß√£o, de rancores com um presidente que usou as pessoas e agora est√° usando de roubar nas vacinas. Aqueles 47% que votaram nele rejeitam o governo. A m√°cula que o Bolsonaro deixou neles é uma coisa muito pesada, uma trai√ß√£o.

Qual é a avalia√ß√£o, hoje, do movimento de 2016?

Foi um momento histórico, lindo. Um momento de enfrentamento de um projeto que estava no poder havia 13 anos, utilizando a corrup√ß√£o para permanecer no poder. O movimento organizou as maiores manifesta√ß√Ķes da história do Brasil, tirou do poder um governo corrupto. Porém, as elites brasileiras n√£o souberam entender o fenômeno e n√£o deram uma resposta condizente àquilo. E a resposta, n√£o havendo uma resposta da elite, foi enfiar um vingador ali, que foi esse idiota. A coisa saiu do controle. A culpa desse processo n√£o ter dado certo como um todo é da elite política, a elite partid√°ria brasileira.

"A nossa frase é Eles, n√£o. Nem Lula, nem Bolsonaro", diz porta-voz do VPR

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O que levou o Vem Pra Rua a protocolar um pedido de impeachment de Jair Bolsonaro?

Bolsonaro incorreu em v√°rios crimes de responsabilidade, e a gente n√£o pode se omitir, independentemente de quem seja presidente da República. Se nós queremos realmente avan√ßar no País, seja no combate à corrup√ß√£o, seja para conter a omiss√£o e a neglig√™ncia de um presidente da República, para que tenhamos mais agentes públicos respons√°veis, é preciso que essas condutas sejam analisadas e que o impeachment, que faz parte do processo democr√°tico, seja avaliado.

E o que motivou voc√™s a escolherem o 12 de setembro como o dia para a realiza√ß√£o da manifesta√ß√£o? Por que só daqui a dois meses?

É uma a√ß√£o tardia diante dos sérios crimes de responsabilidade que presenciamos ao longo desses dois anos e meio. Seria muito mais interessante que essas manifesta√ß√Ķes tivessem ocorrido num momento anterior. Mas, infelizmente, tivemos que observar a evolu√ß√£o do quadro da pandemia para tomar uma decis√£o respons√°vel. Observamos também o calend√°rio de vacina√ß√£o em S√£o Paulo, e entendemos que o m√™s de setembro ser√° o mais seguro (com expectativa de 100% dos adultos terem tomado ao menos a primeira dose).

J√° existem manifesta√ß√Ķes de abrang√™ncia nacional ligadas à esquerda. H√° alguma indisposi√ß√£o de voc√™s em fazer parte desse movimento?

Todo cidad√£o brasileiro a favor do impeachment é bem-vindo na manifesta√ß√£o. A manifesta√ß√£o é do Vem Pra Rua e n√£o corrobora nenhuma candidatura política. O problema é que h√° alguns movimentos de esquerda voltados a defender a candidatura de Lula. N√£o é o nosso objetivo: n√£o queremos trazer Lula para o cen√°rio político. Nossa frase é o "Eles, n√£o". Nem Bolsonaro, nem Lula. O movimento Vem Pra Rua acaba representando também um centro, centro-direita, que n√£o se sente representado pelas manifesta√ß√Ķes de esquerda.

É possível imaginar uma manifesta√ß√£o que possa englobar os mais diversos espectros políticos, e também a esquerda?

É importante que a sociedade inteira seja representada – inclusive a esquerda, a esquerda democr√°tica. O que nós temos que repudiar é a viol√™ncia. Ela acaba impactando de forma muito negativa nesses processos, porque afasta a popula√ß√£o, que fica receosa de sair às ruas quando elas precisam ser tomadas. A gente tem que transformar a rua num cen√°rio pacífico de manifesta√ß√£o para que a voz dessa popula√ß√£o seja ouvida pelos parlamentares e que a gente consiga elevar essa nossa voz de forma conjunta, coletiva, reunindo todos esses movimentos: esquerda, centro e direita, numa voz única. É importante que essa popula√ß√£o que hoje representa cerca de 75% dos eleitores brasileiros, estejam ali no total, mostrando, realmente, o que todos nós queremos.

Voc√™s também marcaram presen√ßa nas manifesta√ß√Ķes que pediram o impeachment de Dilma. Quais as diferen√ßas?

Eu acredito que os casos, em si, s√£o diferentes. O impeachment de Dilma foi um resultado de quase 16 anos de cleptocracia, que culminou nas pedaladas fiscais e levou à retirada da presidente do poder. Agora, os crimes s√£o diferentes, mas s√£o muito mais contundentes, mesmo com apenas dois anos e meio de mandato. S√£o 33 crimes tipificados. H√° uma abrang√™ncia muito maior do que no próprio pedido de impeachment de Dilma.

Est√° sendo mais difícil?

Acho que n√£o. O impeachment é um processo político e, sobretudo, desgastante, tanto para a sociedade como para o Parlamento. H√° uma resist√™ncia do Congresso como houve também no início do pedido de impeachment da presidente. Mas h√° uma evolu√ß√£o, inclusive, da própria popula√ß√£o. No impeachment de Dilma, houve uma ades√£o da popula√ß√£o muito forte para aquela mudan√ßa de estrutura. Agora, o caminho que nós percorremos é o mesmo: conscientizar a popula√ß√£o de que existem crimes e que ela precisa apoiar o afastamento de um presidente que incide reiteradamente em crimes de responsabilidade. A press√£o vai para os deputados. Aquela press√£o deixou os parlamentares sem alternativa que n√£o fosse pautar o pedido de impeachment.

Como consolidar um caminho para a renova√ß√£o política?

A defesa da renova√ß√£o tem que vir acompanhada de uma gest√£o respons√°vel, de um compromisso com promessas de campanha e a realiza√ß√£o delas. E, de fato, Bolsonaro n√£o cumpriu as suas promessas de campanha; pelo contr√°rio. O pedido de impeachment é constitucional. Essa ferramenta est√° disponível para a popula√ß√£o e para o Parlamento.


Fonte: Estad√£o

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